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Publicado: 19/12/2011 em Uncategorized

A importância do seu cometário não possui tamanho, porque é ele o combustível de qualquer escritor. A partir das palavras do leitor é possível conhecer mais o nosso próprio trabalho, e, obviamente, melhorar cada vez mais! Além de criticar o que você lê aqui, dê alguma sugestão, será muito interessante. Obrigado pela sua atenção!

21 de agosto de 2010,

Publicado: 11/12/2011 em Diário

Coração apertado. Aquela família, ali em casa, longe de saber da verdade. Submersa num outro universo, longe do país natal.

Em busca da felicidade.

   – Bom dia – Fui o último a despertar. Eles estavam tomando o café da manhã.

   – Você estava dormindo tão bonitinho, não queria te acordar filho. Maire e seus pais riram com a minha mãe. A minha preocupação era tão grande que nem me incomodara com o mico materno.

   Os móveis novos chegariam pela tarde, enquanto isso o apartamento seria limpo. Eles haviam vendido tudo que possuíam na Irlanda para recomprar aqui.

   Os adultos estavam ocupados em arrumar os materiais de limpeza para comprar os que estavam faltando no mercado. Fomos a pé, não era longe do prédio, apenas alguns minutos. Estava cheio, muitas pessoas em diversas filas que se estendiam pelo estabelecimento.

   – Esse serve? – Maire trazia uma garrafa de água sanitária na mão

   – Ah, serve sim. Não pode faltar.

   – Fernando, está tudo bem contigo? – Tinha percebido minha angústia. – Alguma coisa lhe incomoda? Eu posso lhe ajudar… – sua cordialidade só piorava tudo.

   – Oh, Maire, não é nada. Obrigado, está tudo bem. Agora vamos, nossos pais estão esperando a gente para poder começar. – Eu sou um monstro!

   Durante a volta Maire me contou novas vivências. Nada ruim, apenas experiências normais de toda criança. Devo admitir que me confortou um pouco saber que já experimentara a alegria da vida.

   – Aqui estão as compras. – Chegamos. Eles já estavam com tudo preparado para a faxina.

   Novamente aquela porta, o meu coração acelerou. Bem diferente da última vez: era dia, sem riscos de luzes se apagando e, melhor, não estava sozinho. O pai da Maire colocou a chave na fechadura e girou, a porta se abriu com um rangido revelando o interior do imóvel.

   Entramos com as coisas. Parecia tudo normal, não sentia nada, nem via nada. Na verdade o lugar estava impecável, tudo limpo, sem as baratas e teias que deveriam de haver. O espaço era uma cópia do meu apartamento, provavelmente todos os outros haveriam de ser. Não precisaríamos usar os materiais de limpeza.

   Eu estava intrigado, sem qualquer pista da presença do poltergeist. Deveria estar feliz, mas sabia que a história não era bem assim. Olhava cada canto do apartamento prestando atenção em tudo. Mas nada estava fora do normal.

   – Já que fomos poupados do trabalho, que tal um lanche? – propôs a minha mãe.

   Voltamos para o nosso apartamento.

   – Fernando, você sentiu como se houvesse mais alguém conosco lá em cima? – Me perguntou Maire, não tinha percebido absolutamente nada.

   – Não, você sim? Vem cá, eles não devem ouvir… – Fomos para o jardim, em frente ao prédio.

   – Foi estranho, não quis falar no momento.

   – Maire, tenho que falar uma coisa pra você. Um segredo meu que você precisa saber.

   O sol deixava seus olhos mais claros.

   – Eu sou médium – disse

   – Médium?

   – Sim. E acredito que você também seja.

   – Eu? Não sei o que lhe responder, Fernando. – Ela realmente ficara surpresa. – Pode estar certo, mas não sei o que isso vai mudar.

   – Confesso que não senti nada no seu apartamento, mas poderá haver sim algo lá. Eu me sinto muito mal, muito mal.

   Era a hora de lhe contar o pior.

   – Quer voltar, tomar um remédio?

   – Não, não é nada fisiológico Maire. Eu tenho que te dizer outra coisa, difícil, que pode lhe assustar. Mas não quero isso, eu prometo que lhe ajudarei, não se preocupe.

   Peguei suas mãos, como fazia com a Lê.

   – Pode falar.

   Nunca tinha reparado como ela era linda.

   – Eu descobri que tem um poltergeist no apartamento onde você e seus pais vão morar.

   – Um polter…

   Ela começou a lacrimejar, logo o choro veio.

   – Eu não mereço isto, eles não merecem, Fernando. – Apontou para a janela do apartamento, desabafando – O que eu fiz?

  – Nada, Maire, nada. Acalme-se. Eu estou aqui. Sim? Olha, vamos conversar em outro lugar. No meu quarto, pode ser? Aqui não é o lugar mais indicado. Vamos.

   Ela enxugou os olhos com as costas das mãos para ninguém perceber. Não queria alarmar seus pais. Estava aliviado depois de ter dito tudo para ela, um peso a menos em minhas costas. Joe estava deitado ao lado da minha cama, ultimamente era o lugar onde ele passava o dia inteiro.

   – Está melhor agora?

   – Sim, acho que sim.

   – Comece pela sensação de ter sentido alguém te observando.

   Nos sentamos, eu puxei uma cadeira e ela sentou-se na cama. De tanto chorar seus olhos estavam vermelhos, assim como a ponta de seu nariz.

   – Quando entramos. – sua voz fraca – Como se nós fossemos visitantes. Não pude ver nada, apenas senti, sabe? – falava em meio a soluços – Tenho a absoluta certeza de que havia alguém… Alguma coisa lá. Então era como se eu tivesse regressado no tempo, voltado àquele quarto, na Irlanda, e tudo aquilo voltasse a acontecer.

   – Deve ter sido horrível, Maire. – falei mirando-a

   – É… E agora, Fernando? O que faço?

   Como eu queria poder ajudá-la, mas não fazia ideia do que fazer. Sentia-me um nada.

   – Não sei, mas vamos descobrir.

   – Olá, estou interrompendo? – Minha mãe entrou no quarto, sorrindo. – Maire, por que você está assim? Oh, minha querida! O que houve? – Ela a abraçou.

   – Nada, nada. São lágrimas de alegria. – Esforçou um sorriso difícil – Bem, a senhora promete não contar nada aos meus pais? Não quero deixá-los preocupados à toa, afinal estou alegre, não é?

   – Sim, claro, minha querida. – E abraçou-lhe novamente. – Maire tinha uma força imensa. – Vou deixá-los continuar a conversa.

20 de agosto de 2010,

Publicado: 16/01/2011 em Diário

O dia amanheceu com a presença do sol, diferente de ontem. Não havia sinal de granizo algum. Na escola foi o mesmo roteiro de sempre, as aulas chatas e cansativas, com os professores sem a mínima vontade de lecionar; acho que até eu ficaria assim com o salário que recebem.

A minha colega que também era médium não freqüentava mais o colégio, havia saído, mudado de Estado.

E a preocupação martelava em minha cabeça, aquele convite revelava um mau agouro. A minha mãe tinha ido fazer compras, roupas novas para a festa, com um sorriso na cara que fazia meu pai estremecer. A noite chegava, já passava das 17:30 e eu fora obrigado a me vestir “decentemente”. A ansiedade chegava a mim, em breve eu conheceria aqueles que conviverão com o poltergeist.

 

– Preparados? Então vamos.

Não estava preparado, mas eu não poderia faltar. O salão estava lotado, com gente que eu nunca havia visto no prédio. De todos que eu realmente conhecia só os pais da Lê não estavam presentes. Era cada figura que se sobressaía; se não fosse pelo motivo da festa estaria me divertindo com as roupas esdrúxulas, parecia que estavam concorrendo ao prêmio de mais chamativa roupa.

Aquela comemoração fora idealizada pelo próprio síndico, como as anteriores. Uma faixa gigante com “Boas Vindas” impresso flutuava no teto. Com o dinheiro gasto em tudo aquilo poderiam ter feito melhorias no prédio.

– Eles chegaram… – disse seu Gustavo, o síndico.

Todos se viraram para a entrada, curiosos em conhecer os novos vizinhos.

Três pessoas surgiram da porta principal, um casal de mãos dadas, supostamente os pais da jovem que os acompanhava. Todos tinham uma boa aparência, o que motivou o burburinho no local.

Numa ação que me deixou envergonhado, a minha mãe voou para a nova família, me carregando junto. Ela deu as boas vindas e começou a falar do condomínio para os novatos, do prédio e oferecendo ajuda quando precisassem. Eles retribuíam a calorosa recepção com sorrisos impecáveis. A garota e eu trocávamos olhares, parecia que ela também havia se constrangido com minha mãe… Mas sorria educadamente.

As horas se iam e mais gente puxava conversa com eles, e minha mãe sempre colada, intrometida. Entretanto eles pareciam ter gostado dela, as duas mulheres batiam altos papos e meu pai se esforçava para conversar com o homem sobre arquitetura.

Eu resolvi puxar conversa também, sabia que estava começando a ficar vermelho:

– Oi, me chamo Fernando. Prazer em te conhecer

– Olá Fernando, prazer em te conhecer também. O meu nome é Maire, sabe, você é o primeiro garoto que eu conheci desde quando chegamos no Brasil. – Era verdade que eles falavam com um sotaque, mas era fraco, como os sotaques de cada região brasileira. Não pensava que eles viessem de outro país… – Não se espante. Eu vim de Dublin.

– Você fala muito bem português para uma irlandesa.

– Obrigada, dedico isso aos nossos professores de português. – Ela era engraçada, me cativava.

– Você pode me contar o motivo de vocês terem deixado a Irlanda?

– Ah, claro! Meus pais sempre gostaram daqui. Vinham todos os anos pro carnaval de Salvador e quando eu nasci eles resolveram se mudar. Mas antes tinham que aprender a língua do novo país, e queriam que além de eu aprender português, tinha que saber a minha língua materna.

Estava impressionado com aquela história.

– Interessante. Mas você está gostando do Brasil?

– Ainda não posso responder a sua pergunta. Faz muito pouco tempo que pisei nessa terra. – Riu.

De repente uma lembrança triste me assaltou. Recordara que era ela e seus pais quem iriam morar naquele apartamento.

– Tudo bem com você Fernando?

– Comigo? Sim, estou.

Meus pais os convidaram para irem ao nosso apartamento. Não foi difícil convencer a senhora Liadan e o senhor Nolan, pois eles estavam desconfortados com a multidão ao seu lado. Difícil foi fazer com que o síndico permitisse que eles saíssem, afinal de contas havia usado muito dinheiro na festa de boas vindas.

Passamos pelo jardim para chegarmos ao prédio, uma lua alvíssima nos iluminava. As tulipas ganhavam uma nova coloração com a luz lunar.

– Vocês vão adorar viver aqui. – repetiu pela enésima vez a minha mãe quando chegamos. – Por que não dormem aqui esta noite? O apartamento de vocês deve estar cheio de poeira. Temos o quarto de hóspede e o Fernando não se importaria em ceder o seu quarto para a Maire.

– Claro que eu não me importaria

– Assim, quando amanhecer, nós ajudaremos na mudança e limpeza. Será um prazer ajudá-los.

– Os brasileiros são ótimos recepcionistas – disse a senhora Liadan para Maire sorridente.

Não havia dúvida de quem estava mais feliz, a minha mãe. Tinha conseguido uma nova amiga.

Os adultos estavam na cozinha conversando.

– Qual a sua idade? – perguntei voltando à conversa.

– 17 anos, e você?

– 16. Maire, você tem religião?

– Não, mas não sou atéia. Não é preciso de religião para conhecer Deus.

– É verdade, também não tenho, mas gosto do espiritismo, ele responde às minhas perguntas.

Maire era muito branca, logo ganharia cor com o sol brasileiro.

– Então você acredita em espíritos? – ela me fitou à espera de uma resposta

– Sim, e muito. – talvez tenha deixado transparecer a minha relação muito íntima com os seres espirituais pelo tom da resposta

– Fernando, eu gostei muito de você, sabe. Isso não acontece sempre, afinal acabamos de nos conhecer. Sinto por ti confiança, parece estranho, eu sei.

– Obrigado, fico feliz.

– Eu… – olhou para os pais. Estavam rindo de alguma piada da minha mãe. – Eu trouxe muito sofrimento para eles. Quando era menor, quando tinha onze anos. Não sei se você vai acreditar, é muito louco.

– Não tenha dúvidas, mais nada é louco para mim.

– Bem, eu era perturbada. Ouvia vozes, via pessoas no meu quarto, elas falavam comigo. Só eu podia vê-las e ouvi-las, e os meus pais ficaram muito preocupados. Levavam-me para psicóloga, psiquiatra, mas nada adiantou. Só receitavam medicamentos que me faziam mal.

Ela perdeu o brilho no rosto, suas mãos tremiam.

– Não dormia porque eles não deixavam, me mexiam durante a madrugada. E eu gritava desesperada, acordando sempre meus pais. Nenhuma babá concordava em ficar em casa depois que descobria tudo. Era um tormento.

Eu só escutava, não me movia.

– A minha casa ficava cheia de crianças em todas as partes. Suas risadas, seus choros e chamados pelos seus pais. Eu não tinha ideia de que elas estavam…

– Mortas? – Seria uma médium a Maire?

– Sim. Todos mortos, ali, comigo. Eu sentia cheiro de flores, misturado a cheiro de hospital. Mas graças a Deus tudo acabou quando fiz doze anos.

Eu me arrepiei todo. Devia contar tudo para ela, já sofrera demais. Coisas horríveis para uma pessoa só, e ela não merecia isso. Mas como contar? Os seus olhos estavam marejados. Peguei um refrigerante e lhe ofereci.

– Você tem ideia do que provocou tudo isso?

– Não, nenhuma. Os meus pais não procuraram respostas espirituais.

O fim da noite correu bem. Conversa até altas horas. Eu estava pensativo, claro. O que fazer para salvar aquelas pessoas? Seria melhor não ter conhecimento de nada, talvez o poltergeist já tenha ido embora, ele não dera mais sinal da sua presença. Era isso o que eu desejava, que ele já tenha deixado o apartamento em paz.

19 de agosto de 2010,

Publicado: 11/12/2010 em Diário

Fui despertado pela barulheira do granizo desabando na rua, destruindo o que podia. Seguido por uma sinfonia de alarmes variados dos carros estacionados ao relento, que já não tinham vidro algum. Ainda era muito cedo e pelo visto as aulas seriam suspensas por causa do péssimo tempo. Eu tinha deixado uma poça de baba no teclado, o meu lado esquerdo do rosto estava amassado e podia ver as marcas das teclas. Estava todo entravado, nem as aulas de educação física me deixavam dessa maneira; a culpa era da cadeira, desconfortável, onde dormira a noite inteira. E o monitor estava ligado, na mesma página, como eu havia deixado antes de tombar.

O meu estômago foi tomado por uma sensação desconfortável ao rever a legenda, como se as pedras de granizo estivessem caindo dentro da minha barriga. Levantei-me e acendi a lâmpada fluorescente do quarto. A minha mãe percebeu que eu já tinha acordado e me chamou para tomar o café da manhã.

– Liguei para o seu colégio. As aulas foram canceladas até o fim do dia. – ela quebrou o silêncio

– Eu já imaginava. Mãe, meu pai não está? – ele ainda não dera as caras.

– Ele já saiu para o trabalho

– Mas tão cedo assim? – ele saía sempre antes de mim

– A tempestade, provavelmente o engarrafamento não o deixaria chegar no horário. Então ele resolveu não arriscar, ultimamente muitos dos seus colegas foram despedidos sem causa alguma.

Terminei de me alimentar e me despedi de minha mãe, ela me deu um beijo na testa, eu voltei para o quarto. Precisava ser cauteloso com as pesquisas, poderia ou não ser realmente um poltergeist a chave do mistério. E não quero de forma alguma ser sensacionalista, nem deixar cegar pelo fenômeno.

Procurei em todas as fontes pelo assunto, desde sites espíritas até outros que não sei a que correntes religiosas seguiam. Imprimi tudo, eram mais de sessenta páginas.

As janelas produziam um som metálico desconfortável, era o vento de fora. Fui para debaixo do cobertor com as folhas da pesquisa, o sol ainda não chegara completamente no céu, e não ia chegar tão cedo. Eu li tudo prestando a máxima atenção, agora estava mais informado. Um poltergeist é um espírito atormentado que se manifesta por meio de efeitos físicos. O que atrai uma entidade como essa é a presença no local de algum jovem, em especial uma garota. Ele pode ser muito perigoso, como também pode sumir em algumas semanas. Não conseguia entender uma coisa: como há um poltergeist num apartamento vazio, sem ninguém? Isto era um enigma relevante, mas haveria de ter uma exceção, afinal, se tratando do espiritual, tudo é possível.

Pela potência do barulho produzido pelo espírito naquele dia era um objeto muito pesado, o que revelava sua força imensa.

Acordei pela segunda, era verdade que o cansaço me assolava nos últimos dias. O sol estava mais forte, queimando meu rosto, me deixando encharcado de suor. Olhei para o relógio, meio dia. Quando saí do banho procurei por minha mãe, mas o único vestígio seu foi um bilhete na geladeira. Ela tinha ido ajudar uma colega nos preparativos do casamento, e era para eu pôr o almoço. Sozinho mais uma vez, ou não… A tarde passou de uma maneira muito monótona, exceto por alguns programas da MTV.

A campainha tocou, era uma velhinha pedindo esmolas. Não sabia como conseguira passar pelo porteiro, mas fui buscar alguma coisa para ela comer, sua aparência era desoladora.

– Aqui. Tem umas coisas para a senhora comer.

– Obrigada meu filho – ela pegou a sacola das minhas mãos e se ajoelhou diante de mim chorando.

– Não precisa se ajoelhar, por favor. – eu fiquei envergonhado. Pedi que esperasse mais um pouco. Fui até o meu quarto e peguei o dinheiro da mesada que estava juntando. – Aqui. Acho que isso vai ajudar a senhora. – Ela repetiu os agradecimentos, agora me abraçando. Percebi que estava chorando junto com ela.

– Deus te abençoe querido.

– Amém – Se foi.

A realidade chocava, essa era a verdade. A cada dia eu sabia valorizar o que tinha.

Eu não imaginava quais atitudes tomar. O que fazer quando o seu vizinho de cima é um poltergeist?

Agora foi a vez do telefone tocar, me dando um leve susto, pois estava mergulhado nos pensamentos. Mas o que vinha traria um susto ainda maior

– Olá Fernando, como vai? Bem, estou ligando para avisar que você e seus pais estão sumariamente convidados para a festa de boas vindas aos novos moradores do prédio. Acontecerá no salão de festas do condomínio amanhã, às 19:00 horas. Conto com a presença de vocês.

Não podia ser verdade, não podem morar naquele apartamento. É o único vazio, os outros já têm moradores. Eu tenho que fazer alguma coisa, não posso deixar que os coitados vivam com um ser do mal. Eles estão correndo um grande risco.

18 de agosto de 2010,

Publicado: 07/12/2010 em Diário

Conheci duas garotas pela internet, agora amigas. Uma mora nos Estados Unidos e a outra na Inglaterra. Elas são ótimas pessoas, com gostos parecidos com os meus. Conversamos sobre muitas coisas, como se nos conhecêssemos há décadas. Infelizmente não foram só coisas boas que eu encontrei na web, pois acabei descobrindo um possível motivo para os eventos inexplicáveis, um motivo realmente muito mal.

 

*   *   *   *   *   *   *

É engraçado o poder que a internet tem de aproximar pessoas tão distantes. É o lado bom da força. Esse intercâmbio entre culturas (não tão) diferentes é muito prazeroso, a minha experiência inicial com ele foi muito agradável. O combustível foi uma rede social que está conquistando o mundo inteiro. O twitter me presenteou com elas, Gabriela e Selena, e hoje estamos unidos por causa de um único amor, a nossa Mother Monster. Soa exagero, mas só os little monsters entendem.

Acredito também que essas duas amizades foi por conta da minha vida solitária ultimamente, sem a presença física da Letícia, quem sempre me ouvia, e por gostar de pessoas que não são da minha cidade, estado e país. Uma atração fraterna por turistas, principalmente quando eles são dos Estados Unidos e da Inglaterra, lugares onde eu quero pisar. Então, minhas lindas Selena e Gabriela, eu amo vocês!

 

Os meus olhos estavam cansados, estava prestes a desligar o computador. Nada que eu havia lido tinha relação nem explicava os fatos sombrios do apartamento vazio, e ainda faltavam muitas páginas a visitar. Já me preparava para sair quando uma imagem me chamou a atenção, mostrava um cômodo, meio escuro, e móveis flutuando por ele. A foto parecia datar de muito tempo, a qualidade não era das melhores, mas podia distinguir uma mesa colada ao teto, copos quebrados pelas paredes, um armário voando e três cadeiras na altura da porta. A legenda da foto trazia a palavra Poltergeist.

Mas o cansaço me vencera…

 

 

ENGLISH VERSION (DEDICATED TO MY TWO WONDERFUL FRIENDS THAT ONE DAY I WILL VISIT AND MEET):

 

August 18, 2010,

I met two girls on the Internet, now friends. One lives in the United States and one in England. They are great people with similar tastes to mine. We talked about many things, like we have known for decades. Unfortunately there were only good things I found on the web, as I discovered one possible reason for the unexplained events, a really bad reason.

* * * * * * *

It’s funny that the power of the internet is bringing people together so far. It’s the good side of force. This exchange between cultures (not so) different is very enjoyable, my initial experience with him was very pleasant. Fuel was a social network that is conquering the world. The twitter presented me with them, Gabriella and Selena, and today we are united because of one love, our Mother Monster. Sounds extreme, but consider only the little monsters.

I also believe that these two friends was because of my lonely life lately, without the physical presence of Leticia, who always listened to me, and like people who are not from my city, state and country. A fraternal attraction for tourists, especially when they are in the United States and England, places where I want to tread. So my beautiful Selena and Gabriela, I love you!

My eyes were tired, was about to shut down the computer. Nothing I had read or had explained the facts about the dark empty apartment, and there were still many pages to visit. I’ve been preparing to leave when a picture caught my attention, showed a room, half dark, and furniture floating by him. The photo seemed to date from a long time, the quality was not good, but could make a table affixed to the roof, broken glass walls, a closet and three seats in the flying height of the door. The caption of the photo bore the word Poltergeist.

But the tiredness won me…



17 de agosto de 2010,

Publicado: 18/11/2010 em Diário

Acordei suado. O quarto com um cheiro desagradável de queimado. Na parede havia sombras das árvores sendo projetadas pelo sol que chegava. Ouvi um bem-te-vi ao longe, e me veio à memória a lembrança de Helena e Miguel na noite passada. Uma outra coisa eu tentava ocultar, e assim fiz até a saída do colégio.

Mas foi impossível continuar quando vi um grupo de meninas passarem por mim vestidas de bailarina. Então eu concluí muito tarde: preciso procurar ajuda! E o lugar mais propício e adequado seria um centro espírita. Onde achar um? Por perto só havia igrejas evangélicas e uma casa de magia. Essa eu bem conhecia, me fizera ter medo por muitos anos. Isso quando tinha nove anos e brincava pelas ruas com os amigos do primário.

Fiz pesquisas na internet em busca de um centro mais próximo. Encontrei. Mas resolvi dar um tempo, pensando melhor. Só queria saber o que estava por vir, o meu futuro.

Eu esperava uma coisa desde o início da minha transformação espiritual, algo que eu tinha escutado falar pela maioria dos vizinhos no prédio quando nos mudamos.

No apartamento onde eu moro, esse mesmo em que vivo, houve um crime horrível. Uma mulher fora assassinada pelo marido no local onde está o meu quarto, e seu corpo permaneceu lá por semanas, até que os moradores ao lado reclamassem do mau cheiro que vinha do apartamento.

Vini, um garoto do prédio, me narrava essa história todos os dias de todo o primeiro mês que cheguei. Jurava-me que o local era assombrado e a vítima do homicídio me perseguiria. Em todas as noites daquele período eu pensava no que ele me dizia. Não vou mentir, mas eu senti sim um pouco de medo. Por todos os textos que li sobre pessoas que são mortas de uma forma tão violenta era de esperar que a mulher estivesse por aqui, mas não parece. Se eu fosse uma pessoa ignorante destes assuntos teria enlouquecido.

Quando o sol já não estava no céu a sala se escureceu. Estava esperando pelos meus pais, tinham ido jantar fora. Na verdade fora eu quem sugeriu a ideia. Eles estavam precisando…

Quando eu me dirigia à cozinha ouvi um baque, vinha do apartamento de cima. Estava vazio, à venda, era estranho ouvir esse som vindo de lá. Novamente o barulho, agora mais fraco. De novo, seguido agora de passos pesados. Devia estar alguém dentro, de mudança. Mas não recebemos nenhuma notícia de compradores. Outro som surgiu mais uma vez, distante, mas possível de distinguir: uma mesa sendo arrastada. Fui para a área de serviço, o barulho estava mais forte. Então cessou, voltei à sala.

Veio-me uma vontade desconhecida de ir até a porta do apartamento de cima. Vontade essa que carregava um impulso forte. Quando eu me dirigi até a maçaneta da porta ela rodou num átimo, e eu fui para trás. Eram os meus pais, sorrindo, de mãos dadas. Minha mãe perguntou-me pela minha cara de assustado, o meu pai esperava por uma resposta. Disse-lhe que tinha assistido a um filme de terror na TV. Eles riram. De certa forma estava falando a verdade.

Os pombinhos se despediram de mim e foram para o quarto. Uma energia tirada não sei de onde. Fiquei enrolando por um tempo vendo programinhas bobos que passava. Eles não tinham saído do quarto mais para nada, concluí que já pegaram no sono.

Em frente à porta: madeira simples, velha, uma crosta de poeira. A campainha servia de ninho para aranhas domésticas, daquelas que pulam na gente. E então? Me faltava ação. Bati chamando, nada. Pela segunda vez, menos ainda. Até que os passos ouvidos anteriormente voltaram. Encostei minha orelha direita na madeira, estava tão gelada que me arrepiei. Ouvindo melhor eles se aproximavam. Os passos aumentavam de velocidade de tal forma que foi difícil me desvencilhar da porta.

Já começando a suar encostei-me à parede em frente ao apartamento vazio esperando que um ser vivo abrisse-a e desse um olá. Sentiria-me bem se esse alguém fosse até um cão. Mas ninguém apareceu. Bati novamente, agora mais forte, e voltei à posição de escuta. Não estava passando bem, temendo por algo que eu não conhecia. Sentei no chão, fixando a porta. Fiquei assim por quarenta minutos. Um tempo interminável, o relógio lutava contra ele. O sono já chegava… Pensei comigo mesmo que era interessante nenhum morador do prédio ter saído ou chegado naquele andar. Eu estava no meio do corredor do 3º andar, sozinho. A luz das lâmpadas florescentes só carregava o ambiente de artificialidade, o que de longe era. O meu pé esquerdo começou a formigar, aquela posição iria acabar comigo. Voltei o olhar ao que mais me interessava. Mas absolutamente nada acontecia agora. Eu não sabia si ficava triste ou feliz. Até que uma luz amarelada surgiu pelas arestas da porta de madeira. O coração acelerou, ainda não se acostumou com essas coisas. Olhei para o relógio no pulso e faltavam dez para a meia noite. Nada mais sucedeu. Só aquela iluminação precária que vinha do apartamento vazio. Não sabia o que fazer, poderia ser uma pessoa ainda. Então continuei na espera. O sangue começava a circular com mais velocidade pelas minhas veias.

Meia noite. Droga! Tinha me esquecido do sistema de economia que haviam instalado no prédio: As luzes do corredor se apagaram. Sabe quando tudo que você viu ou escutou sobre terror aparece do nada na sua cabeça? Agora só o que iluminava o pouco espaço que eu ocupava era a luz do apartamento. Um frio chegou do nada, constatei que era por causa das lâmpadas apagadas, elas liberam calor quando acesas. O silêncio do escuro quase total estava ficando insuportável. Só ouvia a minha respiração. Pensei em correr dali o mais depressa possível, imaginando nos horrores já vividos por mim e nos futuros. Porém continuei sentado, tremendo, com muito medo. O tempo se passava, será que os meus pais notaram na minha ausência?

Tomei uma atitude, me levantei e bati pela última vez na porta. Nada aconteceu. Quando fiz menção de ir a luz se apagou… Parei expectativo, o negrume tomara conta de todo o lugar. Não enxergava nada. O silêncio foi quebrado com um estalo, o som da porta sendo destrancada por dentro. Então alguém estava ali mesmo. Mas não se abriu. De repente um som ensurdecedor eclodiu como se tivessem arremessado contra a porta uma bola de boliche. Eu caí no chão com o susto que levei, o coração saindo pela boca; bati a cabeça em algum lugar muito duro, as pernas bambas. Usei o meu celular enquanto corria para iluminar o caminho. Peguei o elevador e voltei para o segundo andar.

O telefone do quarto dos meus pais tocou no momento em que voltei. Provavelmente era o sindico perguntando se eles escutaram o barulho. Fui ao banheiro ver minha cabeça que latejava. Não sangrava, só doía. Deitei-me no sofá da sala. Não poderia ser o espírito da mulher, porque o lugar em que ela fora assassinada é aqui. Ou ela se mudou para lá? Estava começando a delirar. Não se tratava de nada disso. Parece que eu estou num filme que vi, ou o filme está na minha vida.

Dormi olhando para o teto.

16 de agosto de 2010,

Publicado: 28/10/2010 em Diário

Onde passava as pessoas vinham me consolar. Na rua, na escola, em casa. Cada palavra que era dirigida a mim acabava por me anestesiar.

Quando voltei do colégio me tranquei no quarto. Com plena consciência do que fazia era errado. Desse modo eu só prejudicava os espíritos da minha avó e da Lê. Estava sendo injusto, pensando só nos meus sentimentos.

Resolvi pensar nos momentos bons que passamos juntos, é isso que poderia fazê-las feliz. O Aleph estava em cima da escrivaninha agora, intocável, não sentia mais aquele anseio de lê-lo. O meu quarto estava servindo muito esses últimos dias, minha prisão sentimental, eu digo. E já está na hora de mudá-lo, mudar o visual… O vejo como muito sombrio, pesado, toda a minha dor estava sendo depositada nele. Devo exorcizar tudo isso.

Quase que esqueci, íamos receber dois amigos pela noite, minha mãe não conseguira desmarcar as visitas. Estava arrumando a sala para recebê-los. Antes de ir me juntar a ela eu escrevi duas cartas, para cada uma das minhas perdas. Tentei ao máximo expressar todos os meus pensamentos e amor. Depois de escrevê-las as queimei, num ritual, acreditando que elas receberão no astral.

“Está melhor?” perguntou-me meu pai. “Estou”. Praticamente tudo já estava arrumado, só faltava a compra no mercado, me propus a ir. Refrigerantes, salgados, doces. Minha mãe me fizera prometê-la que tudo sairia bem, feliz, como num dia normal. Fácil, esconder os sentimentos assim, principalmente eu, que faço questão de estampar na cara o que sinto. Parece até frieza por sua parte, mas não.

O Miguel foi o primeiro a chegar, nos trouxe várias lembranças dos países em que tinha visitado, cada uma era mais exótica que a outra. Eles conversavam calorosamente, tinham se conhecido na universidade. Muita coisa boa lhe tinha acontecido, muito dinheiro tinha ganhado viajando. A última vez que o vi eu tinha 13 anos, e ele está com a mesma cara. A nossa outra visitante, (na verdade nenhum deles é visitante, já são de casa), ligara avisando que chegaria mais tarde, pois fora pega pelo engarrafamento. Miguel e ela não se conheciam ainda, eu sentia saudades dela também. Joe, meu cachorro, permanecia em baixo da mesa de centro, me olhando. Eu só ouvia, quando respondia era com a cabeça. A minha encenação não duraria por muito tempo, como queria meu quarto. Procurei um ponto fixo para olhar, para o tsunami dos meus sentimentos não me afogar. Me dirigi ao Joe novamente, trocávamos olhares. Desde que minha mediunidade aflorou que ele está assim comigo. O que ele via que eu não podia ver? Às vezes me assustava em pensar. Sou interrompido pelo som da campainha. Era ela! Helena chegara; fui recebê-la, cheia de sacolas, tão simpática como sempre. O mesmo sorriso, sorriso que era sua marca. Meus pais se levantaram, Miguel esperava que a apresentássemos para ele. Helena era desde criança amiga deles, e eu tinha para com ela uma grande dívida, por que fora ela quem apresentou o meu pai à minha mãe… Após os longos abraços e beijos nos voltamos para a sala, e a grande recompensa desse longo e teatral dia aconteceu. Tenho a absoluta certeza de que é impossível poder descrever com palavras o que vi. Mas ficará gravado eternamente na minha retina.

Quando os olhos de Miguel e Helena se encontraram entramos numa outra dimensão, e como sempre só eu percebia isso. Todos os seus gestos eram em câmera lenta, cada movimento corporal durava mais que o normal. Estávamos sendo levados para vários lugares, em diferentes épocas, percebi pelos lugares que surgiam. Os dois continuavam a se olhar fixos. O ambiente mudou novamente, e suas fisionomias também, mas suas posições e a troca de olhares continuavam. Entendia o que se passava; as cenas mudavam e viravam outras pessoas, porém suas expressões eram as mesmas. Eram Miguel e Helena ali, eram suas vidas passadas, suas almas sempre se encontravam. E eu fui presenteado por Deus por poder presenciar esse momento, que talvez se repita por muitas vidas.

Dois camponeses, num imenso horizonte verde. Dois religiosos, em uma igreja obscura. Dois opostos, senhora e escravo, numa senzala. Duas mulheres, numa cidade em construção. Dois idosos, num asilo imundo. Dois atores, em Hollywood. Dois amantes, prostituta e cliente, numa cama vermelha. Dois homens, perseguidos, num quarto em chamas. Duas almas, unidas, na minha frente. Todos eles, são Helena e Miguel.

Retornamos ao presente, eles se abraçaram, começaram a conversar, meus pais foram pegar a comida. Sabiam que alguma coisa estava acontecendo, mas não o quê. Suas faces eram de dois bobos, como adolescentes no primeiro encontro. O que o amor não fazia. Estavam se conhecendo mais uma vez, risonhos, o centro do mundo estava neles agora.

Após uma longa conversa me despedi e fui me deitar. De volta ao quarto troquei de roupa. Logo adormeci, o que não era normal, mas não durou por muito tempo. Despertei sobressaltado, por causa de um pesadelo: aparecia uma porta estranha entreaberta para mim, e dela saiam vários homens carregando caixões. Esses homens tinham sua pele queimada, de uma vermelhidão viva. Por último surgiu uma menininha, tinha uma fúcsia na mão direita. Caminhava cabisbaixa. Noutro segundo me olhou severamente, como se me reprovasse de alguma coisa e gritou meu nome. A flor que estava em sua mão tinha apodrecido e seu cabelo começou a pegar fogo. Seus gemidos me desconcertava, eu tentava me mover para ajudá-la mais não conseguia. O fogo se alastrou pela sua roupa infantil, e seus berros só aumentavam de intensidade. Eu fechei meus olhos, mas eles se abriram contra minha vontade; estava sendo obrigado a ver aquela cena. Tinha consciência de que tudo aquilo era só um pesadelo, mas de uma realidade chocante. Ela se debatia no chão, tremendo, enquanto seu pequeno corpo era carbonizado. Parou. Só uma fumaça negra que saia dela se movia pelo quarto agora. Um estalo de dedos e tudo em minha volta era só o meu quarto outra vez.

Da sala ouvia a voz de Helena. E minha vó e Lê voltaram à minha cabeça.