Arquivo de outubro, 2010

16 de agosto de 2010,

Publicado: 28/10/2010 em Diário

Onde passava as pessoas vinham me consolar. Na rua, na escola, em casa. Cada palavra que era dirigida a mim acabava por me anestesiar.

Quando voltei do colégio me tranquei no quarto. Com plena consciência do que fazia era errado. Desse modo eu só prejudicava os espíritos da minha avó e da Lê. Estava sendo injusto, pensando só nos meus sentimentos.

Resolvi pensar nos momentos bons que passamos juntos, é isso que poderia fazê-las feliz. O Aleph estava em cima da escrivaninha agora, intocável, não sentia mais aquele anseio de lê-lo. O meu quarto estava servindo muito esses últimos dias, minha prisão sentimental, eu digo. E já está na hora de mudá-lo, mudar o visual… O vejo como muito sombrio, pesado, toda a minha dor estava sendo depositada nele. Devo exorcizar tudo isso.

Quase que esqueci, íamos receber dois amigos pela noite, minha mãe não conseguira desmarcar as visitas. Estava arrumando a sala para recebê-los. Antes de ir me juntar a ela eu escrevi duas cartas, para cada uma das minhas perdas. Tentei ao máximo expressar todos os meus pensamentos e amor. Depois de escrevê-las as queimei, num ritual, acreditando que elas receberão no astral.

“Está melhor?” perguntou-me meu pai. “Estou”. Praticamente tudo já estava arrumado, só faltava a compra no mercado, me propus a ir. Refrigerantes, salgados, doces. Minha mãe me fizera prometê-la que tudo sairia bem, feliz, como num dia normal. Fácil, esconder os sentimentos assim, principalmente eu, que faço questão de estampar na cara o que sinto. Parece até frieza por sua parte, mas não.

O Miguel foi o primeiro a chegar, nos trouxe várias lembranças dos países em que tinha visitado, cada uma era mais exótica que a outra. Eles conversavam calorosamente, tinham se conhecido na universidade. Muita coisa boa lhe tinha acontecido, muito dinheiro tinha ganhado viajando. A última vez que o vi eu tinha 13 anos, e ele está com a mesma cara. A nossa outra visitante, (na verdade nenhum deles é visitante, já são de casa), ligara avisando que chegaria mais tarde, pois fora pega pelo engarrafamento. Miguel e ela não se conheciam ainda, eu sentia saudades dela também. Joe, meu cachorro, permanecia em baixo da mesa de centro, me olhando. Eu só ouvia, quando respondia era com a cabeça. A minha encenação não duraria por muito tempo, como queria meu quarto. Procurei um ponto fixo para olhar, para o tsunami dos meus sentimentos não me afogar. Me dirigi ao Joe novamente, trocávamos olhares. Desde que minha mediunidade aflorou que ele está assim comigo. O que ele via que eu não podia ver? Às vezes me assustava em pensar. Sou interrompido pelo som da campainha. Era ela! Helena chegara; fui recebê-la, cheia de sacolas, tão simpática como sempre. O mesmo sorriso, sorriso que era sua marca. Meus pais se levantaram, Miguel esperava que a apresentássemos para ele. Helena era desde criança amiga deles, e eu tinha para com ela uma grande dívida, por que fora ela quem apresentou o meu pai à minha mãe… Após os longos abraços e beijos nos voltamos para a sala, e a grande recompensa desse longo e teatral dia aconteceu. Tenho a absoluta certeza de que é impossível poder descrever com palavras o que vi. Mas ficará gravado eternamente na minha retina.

Quando os olhos de Miguel e Helena se encontraram entramos numa outra dimensão, e como sempre só eu percebia isso. Todos os seus gestos eram em câmera lenta, cada movimento corporal durava mais que o normal. Estávamos sendo levados para vários lugares, em diferentes épocas, percebi pelos lugares que surgiam. Os dois continuavam a se olhar fixos. O ambiente mudou novamente, e suas fisionomias também, mas suas posições e a troca de olhares continuavam. Entendia o que se passava; as cenas mudavam e viravam outras pessoas, porém suas expressões eram as mesmas. Eram Miguel e Helena ali, eram suas vidas passadas, suas almas sempre se encontravam. E eu fui presenteado por Deus por poder presenciar esse momento, que talvez se repita por muitas vidas.

Dois camponeses, num imenso horizonte verde. Dois religiosos, em uma igreja obscura. Dois opostos, senhora e escravo, numa senzala. Duas mulheres, numa cidade em construção. Dois idosos, num asilo imundo. Dois atores, em Hollywood. Dois amantes, prostituta e cliente, numa cama vermelha. Dois homens, perseguidos, num quarto em chamas. Duas almas, unidas, na minha frente. Todos eles, são Helena e Miguel.

Retornamos ao presente, eles se abraçaram, começaram a conversar, meus pais foram pegar a comida. Sabiam que alguma coisa estava acontecendo, mas não o quê. Suas faces eram de dois bobos, como adolescentes no primeiro encontro. O que o amor não fazia. Estavam se conhecendo mais uma vez, risonhos, o centro do mundo estava neles agora.

Após uma longa conversa me despedi e fui me deitar. De volta ao quarto troquei de roupa. Logo adormeci, o que não era normal, mas não durou por muito tempo. Despertei sobressaltado, por causa de um pesadelo: aparecia uma porta estranha entreaberta para mim, e dela saiam vários homens carregando caixões. Esses homens tinham sua pele queimada, de uma vermelhidão viva. Por último surgiu uma menininha, tinha uma fúcsia na mão direita. Caminhava cabisbaixa. Noutro segundo me olhou severamente, como se me reprovasse de alguma coisa e gritou meu nome. A flor que estava em sua mão tinha apodrecido e seu cabelo começou a pegar fogo. Seus gemidos me desconcertava, eu tentava me mover para ajudá-la mais não conseguia. O fogo se alastrou pela sua roupa infantil, e seus berros só aumentavam de intensidade. Eu fechei meus olhos, mas eles se abriram contra minha vontade; estava sendo obrigado a ver aquela cena. Tinha consciência de que tudo aquilo era só um pesadelo, mas de uma realidade chocante. Ela se debatia no chão, tremendo, enquanto seu pequeno corpo era carbonizado. Parou. Só uma fumaça negra que saia dela se movia pelo quarto agora. Um estalo de dedos e tudo em minha volta era só o meu quarto outra vez.

Da sala ouvia a voz de Helena. E minha vó e Lê voltaram à minha cabeça.

Anúncios

15 de agosto de 2010,

Publicado: 15/10/2010 em Diário

O que me aconteceu ontem no colégio em pleno sábado, e só podia ser sábado, me retornava à cabeça. Mas eu procurava esquecer por enquanto com as minhas tarefas de casa. E falando em casa as coisas não estão como antes aqui. Acho que o motivo sou eu. Meus pais estão mais estressados que nunca, e meu cachorro vive se escondendo de mim. Quando terminei minhas obrigações aproveitei a tarde para ir à livraria, estava procurando pelo O Aleph, do Paulo Coelho; sou seu fã. Seus livros sempre me surpreendem, gosto de todos.

Quando deixei a livraria com o livro passei pelo cinema, e não deixei de notar na fila que rodeava toda a praça de alimentação do segundo andar do shopping. Procurei pelo motivo, levei alguns segundos e encontrei: estréia de um filme de terror, aparentemente barato, Atividade Paranormal. Aquelas pessoas estavam pagando para assistir a cenas que eu vivenciava no mundo real totalmente de graça. Bem, analisando melhor, tem um preço sim.

Pensei em assistir, mas aquela fila brochante que só se estendia… Olhei para o relógio e eram 16:00 horas, eu tinha até as 22:00 para voltar. Me joguei e quando percebi já estava na sala.

A sessão acabou e eu saí trêmulo. Que filme era aquele? Foi o melhor terror que eu havia assistido em toda minha vida. As pessoas sentiram o que eu sinto. Elas estavam conversando entre si, histéricas; alguns tinham saído antes e escutavam agora o que se passara com o casal; outros sofreram mal e choravam sentados pelo chão. Era um fenômeno, e corria boatos de uma continuação!

Minha mãe estava em frente ao nosso prédio, eu não entendia nada. Sua cara era desoladora. “O que aconteceu?” eu lhe perguntei, ficando alarmado. “A filha da senhora Estela se matou.” Aquela resposta fez o meu coração doer, a minha melhor amiga havia se matado. A Letícia tirara a própria vida. Ali o meu mundo desmoronou, minhas pilastras estavam no chão. Eu não sabia o que dizer, o que fazer, quem eu era? Eu não sentia nada igual desde a perda da minha avó, e não tinha muito tempo. O que eu havia feito? Minha mãe disse que o seu corpo estava em sua casa. Corri largando tudo que tinha na mão.

Ela estava deitada na sua cama, minha doce amiga; sua mãe segurava suas mãos brancas. Como se estivesse dormindo. Ao seu lado estavam dois frascos de remédio vazios. Overdose. Mas por quê? Era sempre feliz, alto astral, era companheira e animadora. Não entendia, parecia que eu é que tomei aqueles comprimidos. Estela saiu para tomar água, eu me aproximei dela. Onde estava aquela garota? Ajoelhei-me à sua frente. Procurei suas mãos, eram gelo. Levei-as até o meu coração, coração que não bateria mais como antes. O seu rosto estava lívido, percebi uma lágrima que lutava em sair do seu olho fechado. Comecei a chorar também e dizer tudo o que sentia por ela. “Nossa amizade será eterna como nossas almas. Eu te amo.”

Após ter conversado com os seus pais eu voltei para o apartamento. Não comi, tomei banho, não falei nada, fui me deitar. O Aleph estava sobre minha cama. Íamos ler juntos, e discutir o livro. Não estava conseguindo dormir, não tinha a menor vontade. Só pensando nela, nos momentos que passamos. Éramos tão grudados que perguntavam se namorávamos. Éramos mais que isso, o que ela era para mim e o que eu era para ela a língua humana não sabe nominar. Mais que almas gêmeas, mais que tudo.

Ainda corriam lágrimas de mim, salgadas como o mar. Queria ter presenciado seu espírito ser acompanhado por uma alma de luz, mas sei que a realidade não é essa. Sei o que os suicidas passam… E é isso o que mais me consome.

Tínhamos muitos planos, o principal era escrever um livro juntos, para selar nossa amizade. Desliguei o abajur, mas o quarto ainda estava iluminado pela lua, que era cheia. O silêncio da noite me dava uma tapa na cara, me levando para a realidade inaceitável. Quem faltava morrer? Eu? Levantei-me e fui até a escrivaninha, retirei um envelope da gaveta. Um envelope especial, onde ali dentro estavam tesouros. Eram as cartas que a Lê me fazia, ela tinha outro envelope com as minhas cartas que eu havia lhe dado. Peguei a última e abri. Dentro tinha uma foto nossa sorridentes. Não existiam mais lágrimas para derramar.

“Olá meu amigo, como tem ido sua vida? Ontem eu passei no seu apartamento, mas você não estava. Fernando, você não pode imaginar o quanto estou feliz! Aquilo que eu te contei aconteceu, e da maneira mais sublime que eu poderia imaginar. Só nos encontrando para conversarmos. Adorei a sua carta Nando, prometa que nunca deixaremos de fazê-las. Já deve ter visto a foto, você se lembra de quando foi? Amigo, eu te amo muito, você sabe disso. Precisamos nos ver o quanto antes. Amor,

Lê.”

14 de agosto de 2010,

Publicado: 11/10/2010 em Diário

Visitei Londres em sonho. Tão real como agora, enquanto estou escrevendo. Um sonho realizado literalmente. Deixou-me um pouco mais alegre depois de ontem e mais confuso. Como é possível?

Fui ao colégio pensativo, reparando nas pessoas e no que elas me faziam sentir. Quando cheguei tive uma surpresa, não, nada paranormal: o professor de química não iria dar aula, o que me fez ficar furioso, afinal ele daria um seminário sobre química forense. Agradeço ao CSI por me ter feito gostar. Bom, não poderia fazer nada, senão ler.

Dirigi-me ao fundo da minha imensa sala de aula, para poder me concentrar melhor. Ler era uma das minhas paixões, só estava atrás da primeira, escrever. Levei um bom tempo na leitura; ainda estava no início do segundo horário quando alguns dos meus colegas retornaram. Traziam objetos, logo percebi o que estava por vir. Iam jogar o jogo do copo, todos sorridentes, à procura de comunicação com o outro lado. Me bateu uma curiosidade; como seria agora nessa minha nova condição? Será que toda essa história é verdadeira? Eu ainda me perguntei…

Eu estava lá despercebido, como um espectador. O desconhecido sempre mantinha um fascínio sobre as pessoas, em especial os jovens. Começaram com o ritual de início, aquele besteirol todo de orações ao contrário e etc… O que na verdade não tinha efeito algum. Deram as mãos, fingindo uma seriedade falsa. Cada um dos quatro pôs seus indicadores direitos sobre o copo. Eu já imaginava o que viria: um deles iria movimentar o objeto de acordo com a resposta desejada, querendo assombrar os amigos. E juraria que não fora ele quem estava mexendo.

Um minuto se passou e aquelas coisas voltaram a acontecer. Foi numa questão de piscar de olhos, uma hora só estavam eles ali, outra uma visita bem vinda, afinal eles o convidaram não? O “Tem alguém aí?” atraíra o desencarnado. Dessa vez não me senti mal, nem bem. A figura de um homem alto, vestido de forma comum, não me passava nenhum tipo de sentimento. Ao contrário, ele estava influenciando os meus colegas. Pude notar que seus rostos estavam mudados, e uma espécie de fumaça densa emanava daquela entidade, circulando por todos eles. Tinha uma coloração familiar a mim, cor de mercúrio. Não sei defini-la, só sei reconhecê-la. Tomei coragem e me aproximei. Eles continuaram a desperceber minha presença; sentei numa cadeira bem próxima, podendo ver o que acontecia melhor. O copo foi em direção ao sim, em resposta. Os olhos deles se iluminaram. “Como se chama?”; o espírito me olhou feio, como se soubesse que podia vê-lo. André foi o que respondeu, André foi o nome que fizera formar guiando com sua mão o copo pelas letras.

A única mulher dos jogadores começou a se sentir mal, a tremer. Perguntou se poderia sair, mas ele não permitiu e ela o obedeceu.

E era ela quem mais sofria com a presença do espírito. Percebi isto porque a fumaça que a rodeava era mais intensa que nos outros, de maior quantidade, e sua cor era diferente, era violeta e não da cor do mercúrio. O que havia nela que o atraia tanto? Sua mediunidade estava mais desenvolvida. “Como foi sua morte?”; o homem voltou o olhar a mim. Quanto mais se passava o tempo daquele contato espiritual ele parecia se solidificar. Samanta, esse era o nome da garota, mantinha os olhos fechados. Sua força estava sendo “sugada”, sua energia vital se ia.

Morto, André tinha sido morto. Aproximava-se cada vez mais da menina, eu não estava gostando. Sua boca abriu demonstrando um prazer roubado. Eu o interrompi quando ia beijá-la. Peguei o copo e joguei contra a parede, quebrando ele em centenas de pedaços. A entidade revoltou-se contra mim, André berrou e me desferiu um soco. Só senti uma corrente elétrica passar por meu corpo, como se estivesse tomando um choque; meus colegas não entediam nada, apenas a Samanta não havia se levantado da mesa. Estava com os olhos cerrados, estava mais forte. Abri-os quando a voz da professora de biologia ecoou pela sala. “O que está acontecendo aqui?” Foi um grande trabalho convencê-la de que estávamos ensaiando uma peça trágica. E no fim de tudo recebemos um elogio pela realidade do “copo cênico” em pedaços.

O resto da sala chegou para a aula, e eu estava devendo uma explicação para os outros quatro. Nem me importava para o que diria, afinal sou ótimo para inventar. Estava preocupado mesmo era com o espírito, que continuava lá, me olhando, fixamente, na cadeira ao lado. E eu não sei como permanecia também ali, junto a ele. A cada dia que se passava me admirava.

Devia estar muito irritado comigo, o que estava tentando fazer? Me obsediar? E ele estava surpreso comigo. Sabia porque do nada comecei a ouvir o que pensava. Dizia que me odiava, que eu não lhe dava vida, que eu era oco… Não estava conseguindo me fazer o que fizera com Samanta. Então, do nada, ele se levantou (percebi isso pela visão periférica) e sumiu.

“Ele já se foi, não é?” Ela me perguntou, estava abalada ainda. Eu havia encontrado outra médium. Estava tão confusa quanto eu. E Deus a abençoara assim como me abençoara.

13 de agosto de 2010,

Publicado: 09/10/2010 em Diário

Essa semana foi muito conturbada, me aconteceram coisas terríveis. Acabei de voltar do funeral da minha avó, meu coração mutilado. Ela havia falecido após uma parada respiratória. Todos da família estavam lá, todos. E com dezenas de flores para dar a ela. Por que não se reuniram quando estava viva? Por que não a homenagearam com flores enquanto seu coração batia? Não escrevo por isso, eles não merecem. Escrevo agora porque quero ser escritor. Por que sou outro. E acredito que um dia essas palavras valerão mais que dinheiro, pois o que faço é com amor.

Estava tudo “normal” comigo até eu chegar à sala onde o corpo permanecia sobre o caixão. Imóvel como o de uma boneca de porcelana. Não me lembro de quantas vezes eu rezei em mente para ela voltar a mim. Estaria disposto a entregar tudo que tinha para sentir o seu calor, o mesmo que eu sentia quando me abraçava. E ouvi-la me dando a benção. Quando percebi que o que pedia não seria realizado eu me paralisei na cadeira em frente a minha avó amada. E fiquei assim por muito tempo, até que o inimaginável ocorreu: o ambiente se iluminou de uma luz alvíssima, algo que não era humano. Eu imediatamente procurei os rostos dos meus pais, mas eles continuavam com a mesma expressão de tristeza. A iluminação intensificou-se ainda mais, a ponto de meus olhos arderem, e os outros na sala não demonstravam perceber nada. Então concluí que apenas eu podia enxergar o que acontecia na vista de todos…

Voltei-me para o caixão e novamente fui surpreendido. Uma mulher estava ao lado do corpo, sua imagem era de uma paz penetrante; toda de branco ergueu a mão direita chamando minha avó. Eu sabia que ela não era como eu, de carne, e me senti feliz por isso. Minha avó levantou-se, seu espírito havia deixado o corpo. Olhou todos nós, sorriu, e depois seguiu em frente. As duas desapareceram como um crepúsculo em fim de tarde, tão natural, mas todo de uma mágica inexplicável. Eu fiquei mudo durante toda a cena, apenas observava. E odiei por isso, porque não reagi, deveria ter me despedido pela última vez. Na saída a história foi muito diferente, não existia mais aquela energia envolvente e confesso que tremi. O cenário contrastava de maneira impactante com a sala anterior. Será que tudo aquilo era real? Ou estava num surto de esquizofrenia?

Num corredor que dava acesso à saída viam-se figuras humanóides espalhadas pelo chão, novamente procurei as expressões de meus familiares, e, mais uma vez em vão, eles nada viam. Aquelas criaturas tentavam se mover arrastando-se, uma se debatendo contra a outra. E o que mais me intrigava era que as pessoas circulavam por elas, sem sentirem sua presença, atravessando-as como se não estivessem ali. Quando passamos entre elas todo o meu corpo se arrepiou, foi uma sensação desconfortável, eu até gemi. Fui presenciando tudo aquilo lentamente, à espera do despertar de um pesadelo frenético. Mas é ilusão, pois o que estava em frente nada mais era que a pura realidade.

Quando cruzamos as sepulturas novas surpresas mórbidas surgiram. Uma multidão de espíritos caminhava entre os vivos. Compreendi o que me acontecia, compreendi o que me tornara: um médium. Mas o que é ser um médium? Fala-se tanto. Chico Xavier foi um médium, um grande por sinal, ele possuía todas as mediunidades. Aquele senhor é um médium; aquela criança é uma médium. EU sou um médium. Por enquanto eu não tenho a resposta. É melhor esperar que eu viva a minha mediunidade primeiramente, para depois colher minhas próprias conclusões.

E vou ter muito tempo para vivê-la, afinal só tenho dezesseis anos.