Arquivo de novembro, 2010

17 de agosto de 2010,

Publicado: 18/11/2010 em Diário

Acordei suado. O quarto com um cheiro desagradável de queimado. Na parede havia sombras das árvores sendo projetadas pelo sol que chegava. Ouvi um bem-te-vi ao longe, e me veio à memória a lembrança de Helena e Miguel na noite passada. Uma outra coisa eu tentava ocultar, e assim fiz até a saída do colégio.

Mas foi impossível continuar quando vi um grupo de meninas passarem por mim vestidas de bailarina. Então eu concluí muito tarde: preciso procurar ajuda! E o lugar mais propício e adequado seria um centro espírita. Onde achar um? Por perto só havia igrejas evangélicas e uma casa de magia. Essa eu bem conhecia, me fizera ter medo por muitos anos. Isso quando tinha nove anos e brincava pelas ruas com os amigos do primário.

Fiz pesquisas na internet em busca de um centro mais próximo. Encontrei. Mas resolvi dar um tempo, pensando melhor. Só queria saber o que estava por vir, o meu futuro.

Eu esperava uma coisa desde o início da minha transformação espiritual, algo que eu tinha escutado falar pela maioria dos vizinhos no prédio quando nos mudamos.

No apartamento onde eu moro, esse mesmo em que vivo, houve um crime horrível. Uma mulher fora assassinada pelo marido no local onde está o meu quarto, e seu corpo permaneceu lá por semanas, até que os moradores ao lado reclamassem do mau cheiro que vinha do apartamento.

Vini, um garoto do prédio, me narrava essa história todos os dias de todo o primeiro mês que cheguei. Jurava-me que o local era assombrado e a vítima do homicídio me perseguiria. Em todas as noites daquele período eu pensava no que ele me dizia. Não vou mentir, mas eu senti sim um pouco de medo. Por todos os textos que li sobre pessoas que são mortas de uma forma tão violenta era de esperar que a mulher estivesse por aqui, mas não parece. Se eu fosse uma pessoa ignorante destes assuntos teria enlouquecido.

Quando o sol já não estava no céu a sala se escureceu. Estava esperando pelos meus pais, tinham ido jantar fora. Na verdade fora eu quem sugeriu a ideia. Eles estavam precisando…

Quando eu me dirigia à cozinha ouvi um baque, vinha do apartamento de cima. Estava vazio, à venda, era estranho ouvir esse som vindo de lá. Novamente o barulho, agora mais fraco. De novo, seguido agora de passos pesados. Devia estar alguém dentro, de mudança. Mas não recebemos nenhuma notícia de compradores. Outro som surgiu mais uma vez, distante, mas possível de distinguir: uma mesa sendo arrastada. Fui para a área de serviço, o barulho estava mais forte. Então cessou, voltei à sala.

Veio-me uma vontade desconhecida de ir até a porta do apartamento de cima. Vontade essa que carregava um impulso forte. Quando eu me dirigi até a maçaneta da porta ela rodou num átimo, e eu fui para trás. Eram os meus pais, sorrindo, de mãos dadas. Minha mãe perguntou-me pela minha cara de assustado, o meu pai esperava por uma resposta. Disse-lhe que tinha assistido a um filme de terror na TV. Eles riram. De certa forma estava falando a verdade.

Os pombinhos se despediram de mim e foram para o quarto. Uma energia tirada não sei de onde. Fiquei enrolando por um tempo vendo programinhas bobos que passava. Eles não tinham saído do quarto mais para nada, concluí que já pegaram no sono.

Em frente à porta: madeira simples, velha, uma crosta de poeira. A campainha servia de ninho para aranhas domésticas, daquelas que pulam na gente. E então? Me faltava ação. Bati chamando, nada. Pela segunda vez, menos ainda. Até que os passos ouvidos anteriormente voltaram. Encostei minha orelha direita na madeira, estava tão gelada que me arrepiei. Ouvindo melhor eles se aproximavam. Os passos aumentavam de velocidade de tal forma que foi difícil me desvencilhar da porta.

Já começando a suar encostei-me à parede em frente ao apartamento vazio esperando que um ser vivo abrisse-a e desse um olá. Sentiria-me bem se esse alguém fosse até um cão. Mas ninguém apareceu. Bati novamente, agora mais forte, e voltei à posição de escuta. Não estava passando bem, temendo por algo que eu não conhecia. Sentei no chão, fixando a porta. Fiquei assim por quarenta minutos. Um tempo interminável, o relógio lutava contra ele. O sono já chegava… Pensei comigo mesmo que era interessante nenhum morador do prédio ter saído ou chegado naquele andar. Eu estava no meio do corredor do 3º andar, sozinho. A luz das lâmpadas florescentes só carregava o ambiente de artificialidade, o que de longe era. O meu pé esquerdo começou a formigar, aquela posição iria acabar comigo. Voltei o olhar ao que mais me interessava. Mas absolutamente nada acontecia agora. Eu não sabia si ficava triste ou feliz. Até que uma luz amarelada surgiu pelas arestas da porta de madeira. O coração acelerou, ainda não se acostumou com essas coisas. Olhei para o relógio no pulso e faltavam dez para a meia noite. Nada mais sucedeu. Só aquela iluminação precária que vinha do apartamento vazio. Não sabia o que fazer, poderia ser uma pessoa ainda. Então continuei na espera. O sangue começava a circular com mais velocidade pelas minhas veias.

Meia noite. Droga! Tinha me esquecido do sistema de economia que haviam instalado no prédio: As luzes do corredor se apagaram. Sabe quando tudo que você viu ou escutou sobre terror aparece do nada na sua cabeça? Agora só o que iluminava o pouco espaço que eu ocupava era a luz do apartamento. Um frio chegou do nada, constatei que era por causa das lâmpadas apagadas, elas liberam calor quando acesas. O silêncio do escuro quase total estava ficando insuportável. Só ouvia a minha respiração. Pensei em correr dali o mais depressa possível, imaginando nos horrores já vividos por mim e nos futuros. Porém continuei sentado, tremendo, com muito medo. O tempo se passava, será que os meus pais notaram na minha ausência?

Tomei uma atitude, me levantei e bati pela última vez na porta. Nada aconteceu. Quando fiz menção de ir a luz se apagou… Parei expectativo, o negrume tomara conta de todo o lugar. Não enxergava nada. O silêncio foi quebrado com um estalo, o som da porta sendo destrancada por dentro. Então alguém estava ali mesmo. Mas não se abriu. De repente um som ensurdecedor eclodiu como se tivessem arremessado contra a porta uma bola de boliche. Eu caí no chão com o susto que levei, o coração saindo pela boca; bati a cabeça em algum lugar muito duro, as pernas bambas. Usei o meu celular enquanto corria para iluminar o caminho. Peguei o elevador e voltei para o segundo andar.

O telefone do quarto dos meus pais tocou no momento em que voltei. Provavelmente era o sindico perguntando se eles escutaram o barulho. Fui ao banheiro ver minha cabeça que latejava. Não sangrava, só doía. Deitei-me no sofá da sala. Não poderia ser o espírito da mulher, porque o lugar em que ela fora assassinada é aqui. Ou ela se mudou para lá? Estava começando a delirar. Não se tratava de nada disso. Parece que eu estou num filme que vi, ou o filme está na minha vida.

Dormi olhando para o teto.

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