19 de agosto de 2010,

Publicado: 11/12/2010 em Diário

Fui despertado pela barulheira do granizo desabando na rua, destruindo o que podia. Seguido por uma sinfonia de alarmes variados dos carros estacionados ao relento, que já não tinham vidro algum. Ainda era muito cedo e pelo visto as aulas seriam suspensas por causa do péssimo tempo. Eu tinha deixado uma poça de baba no teclado, o meu lado esquerdo do rosto estava amassado e podia ver as marcas das teclas. Estava todo entravado, nem as aulas de educação física me deixavam dessa maneira; a culpa era da cadeira, desconfortável, onde dormira a noite inteira. E o monitor estava ligado, na mesma página, como eu havia deixado antes de tombar.

O meu estômago foi tomado por uma sensação desconfortável ao rever a legenda, como se as pedras de granizo estivessem caindo dentro da minha barriga. Levantei-me e acendi a lâmpada fluorescente do quarto. A minha mãe percebeu que eu já tinha acordado e me chamou para tomar o café da manhã.

– Liguei para o seu colégio. As aulas foram canceladas até o fim do dia. – ela quebrou o silêncio

– Eu já imaginava. Mãe, meu pai não está? – ele ainda não dera as caras.

– Ele já saiu para o trabalho

– Mas tão cedo assim? – ele saía sempre antes de mim

– A tempestade, provavelmente o engarrafamento não o deixaria chegar no horário. Então ele resolveu não arriscar, ultimamente muitos dos seus colegas foram despedidos sem causa alguma.

Terminei de me alimentar e me despedi de minha mãe, ela me deu um beijo na testa, eu voltei para o quarto. Precisava ser cauteloso com as pesquisas, poderia ou não ser realmente um poltergeist a chave do mistério. E não quero de forma alguma ser sensacionalista, nem deixar cegar pelo fenômeno.

Procurei em todas as fontes pelo assunto, desde sites espíritas até outros que não sei a que correntes religiosas seguiam. Imprimi tudo, eram mais de sessenta páginas.

As janelas produziam um som metálico desconfortável, era o vento de fora. Fui para debaixo do cobertor com as folhas da pesquisa, o sol ainda não chegara completamente no céu, e não ia chegar tão cedo. Eu li tudo prestando a máxima atenção, agora estava mais informado. Um poltergeist é um espírito atormentado que se manifesta por meio de efeitos físicos. O que atrai uma entidade como essa é a presença no local de algum jovem, em especial uma garota. Ele pode ser muito perigoso, como também pode sumir em algumas semanas. Não conseguia entender uma coisa: como há um poltergeist num apartamento vazio, sem ninguém? Isto era um enigma relevante, mas haveria de ter uma exceção, afinal, se tratando do espiritual, tudo é possível.

Pela potência do barulho produzido pelo espírito naquele dia era um objeto muito pesado, o que revelava sua força imensa.

Acordei pela segunda, era verdade que o cansaço me assolava nos últimos dias. O sol estava mais forte, queimando meu rosto, me deixando encharcado de suor. Olhei para o relógio, meio dia. Quando saí do banho procurei por minha mãe, mas o único vestígio seu foi um bilhete na geladeira. Ela tinha ido ajudar uma colega nos preparativos do casamento, e era para eu pôr o almoço. Sozinho mais uma vez, ou não… A tarde passou de uma maneira muito monótona, exceto por alguns programas da MTV.

A campainha tocou, era uma velhinha pedindo esmolas. Não sabia como conseguira passar pelo porteiro, mas fui buscar alguma coisa para ela comer, sua aparência era desoladora.

– Aqui. Tem umas coisas para a senhora comer.

– Obrigada meu filho – ela pegou a sacola das minhas mãos e se ajoelhou diante de mim chorando.

– Não precisa se ajoelhar, por favor. – eu fiquei envergonhado. Pedi que esperasse mais um pouco. Fui até o meu quarto e peguei o dinheiro da mesada que estava juntando. – Aqui. Acho que isso vai ajudar a senhora. – Ela repetiu os agradecimentos, agora me abraçando. Percebi que estava chorando junto com ela.

– Deus te abençoe querido.

– Amém – Se foi.

A realidade chocava, essa era a verdade. A cada dia eu sabia valorizar o que tinha.

Eu não imaginava quais atitudes tomar. O que fazer quando o seu vizinho de cima é um poltergeist?

Agora foi a vez do telefone tocar, me dando um leve susto, pois estava mergulhado nos pensamentos. Mas o que vinha traria um susto ainda maior

– Olá Fernando, como vai? Bem, estou ligando para avisar que você e seus pais estão sumariamente convidados para a festa de boas vindas aos novos moradores do prédio. Acontecerá no salão de festas do condomínio amanhã, às 19:00 horas. Conto com a presença de vocês.

Não podia ser verdade, não podem morar naquele apartamento. É o único vazio, os outros já têm moradores. Eu tenho que fazer alguma coisa, não posso deixar que os coitados vivam com um ser do mal. Eles estão correndo um grande risco.

Anúncios
comentários
  1. Stephanie disse:

    Nossa…Suas estórias ficam melhor a cada dia!
    Continuie assimm..Bjs!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s