20 de agosto de 2010,

Publicado: 16/01/2011 em Diário

O dia amanheceu com a presença do sol, diferente de ontem. Não havia sinal de granizo algum. Na escola foi o mesmo roteiro de sempre, as aulas chatas e cansativas, com os professores sem a mínima vontade de lecionar; acho que até eu ficaria assim com o salário que recebem.

A minha colega que também era médium não freqüentava mais o colégio, havia saído, mudado de Estado.

E a preocupação martelava em minha cabeça, aquele convite revelava um mau agouro. A minha mãe tinha ido fazer compras, roupas novas para a festa, com um sorriso na cara que fazia meu pai estremecer. A noite chegava, já passava das 17:30 e eu fora obrigado a me vestir “decentemente”. A ansiedade chegava a mim, em breve eu conheceria aqueles que conviverão com o poltergeist.

 

– Preparados? Então vamos.

Não estava preparado, mas eu não poderia faltar. O salão estava lotado, com gente que eu nunca havia visto no prédio. De todos que eu realmente conhecia só os pais da Lê não estavam presentes. Era cada figura que se sobressaía; se não fosse pelo motivo da festa estaria me divertindo com as roupas esdrúxulas, parecia que estavam concorrendo ao prêmio de mais chamativa roupa.

Aquela comemoração fora idealizada pelo próprio síndico, como as anteriores. Uma faixa gigante com “Boas Vindas” impresso flutuava no teto. Com o dinheiro gasto em tudo aquilo poderiam ter feito melhorias no prédio.

– Eles chegaram… – disse seu Gustavo, o síndico.

Todos se viraram para a entrada, curiosos em conhecer os novos vizinhos.

Três pessoas surgiram da porta principal, um casal de mãos dadas, supostamente os pais da jovem que os acompanhava. Todos tinham uma boa aparência, o que motivou o burburinho no local.

Numa ação que me deixou envergonhado, a minha mãe voou para a nova família, me carregando junto. Ela deu as boas vindas e começou a falar do condomínio para os novatos, do prédio e oferecendo ajuda quando precisassem. Eles retribuíam a calorosa recepção com sorrisos impecáveis. A garota e eu trocávamos olhares, parecia que ela também havia se constrangido com minha mãe… Mas sorria educadamente.

As horas se iam e mais gente puxava conversa com eles, e minha mãe sempre colada, intrometida. Entretanto eles pareciam ter gostado dela, as duas mulheres batiam altos papos e meu pai se esforçava para conversar com o homem sobre arquitetura.

Eu resolvi puxar conversa também, sabia que estava começando a ficar vermelho:

– Oi, me chamo Fernando. Prazer em te conhecer

– Olá Fernando, prazer em te conhecer também. O meu nome é Maire, sabe, você é o primeiro garoto que eu conheci desde quando chegamos no Brasil. – Era verdade que eles falavam com um sotaque, mas era fraco, como os sotaques de cada região brasileira. Não pensava que eles viessem de outro país… – Não se espante. Eu vim de Dublin.

– Você fala muito bem português para uma irlandesa.

– Obrigada, dedico isso aos nossos professores de português. – Ela era engraçada, me cativava.

– Você pode me contar o motivo de vocês terem deixado a Irlanda?

– Ah, claro! Meus pais sempre gostaram daqui. Vinham todos os anos pro carnaval de Salvador e quando eu nasci eles resolveram se mudar. Mas antes tinham que aprender a língua do novo país, e queriam que além de eu aprender português, tinha que saber a minha língua materna.

Estava impressionado com aquela história.

– Interessante. Mas você está gostando do Brasil?

– Ainda não posso responder a sua pergunta. Faz muito pouco tempo que pisei nessa terra. – Riu.

De repente uma lembrança triste me assaltou. Recordara que era ela e seus pais quem iriam morar naquele apartamento.

– Tudo bem com você Fernando?

– Comigo? Sim, estou.

Meus pais os convidaram para irem ao nosso apartamento. Não foi difícil convencer a senhora Liadan e o senhor Nolan, pois eles estavam desconfortados com a multidão ao seu lado. Difícil foi fazer com que o síndico permitisse que eles saíssem, afinal de contas havia usado muito dinheiro na festa de boas vindas.

Passamos pelo jardim para chegarmos ao prédio, uma lua alvíssima nos iluminava. As tulipas ganhavam uma nova coloração com a luz lunar.

– Vocês vão adorar viver aqui. – repetiu pela enésima vez a minha mãe quando chegamos. – Por que não dormem aqui esta noite? O apartamento de vocês deve estar cheio de poeira. Temos o quarto de hóspede e o Fernando não se importaria em ceder o seu quarto para a Maire.

– Claro que eu não me importaria

– Assim, quando amanhecer, nós ajudaremos na mudança e limpeza. Será um prazer ajudá-los.

– Os brasileiros são ótimos recepcionistas – disse a senhora Liadan para Maire sorridente.

Não havia dúvida de quem estava mais feliz, a minha mãe. Tinha conseguido uma nova amiga.

Os adultos estavam na cozinha conversando.

– Qual a sua idade? – perguntei voltando à conversa.

– 17 anos, e você?

– 16. Maire, você tem religião?

– Não, mas não sou atéia. Não é preciso de religião para conhecer Deus.

– É verdade, também não tenho, mas gosto do espiritismo, ele responde às minhas perguntas.

Maire era muito branca, logo ganharia cor com o sol brasileiro.

– Então você acredita em espíritos? – ela me fitou à espera de uma resposta

– Sim, e muito. – talvez tenha deixado transparecer a minha relação muito íntima com os seres espirituais pelo tom da resposta

– Fernando, eu gostei muito de você, sabe. Isso não acontece sempre, afinal acabamos de nos conhecer. Sinto por ti confiança, parece estranho, eu sei.

– Obrigado, fico feliz.

– Eu… – olhou para os pais. Estavam rindo de alguma piada da minha mãe. – Eu trouxe muito sofrimento para eles. Quando era menor, quando tinha onze anos. Não sei se você vai acreditar, é muito louco.

– Não tenha dúvidas, mais nada é louco para mim.

– Bem, eu era perturbada. Ouvia vozes, via pessoas no meu quarto, elas falavam comigo. Só eu podia vê-las e ouvi-las, e os meus pais ficaram muito preocupados. Levavam-me para psicóloga, psiquiatra, mas nada adiantou. Só receitavam medicamentos que me faziam mal.

Ela perdeu o brilho no rosto, suas mãos tremiam.

– Não dormia porque eles não deixavam, me mexiam durante a madrugada. E eu gritava desesperada, acordando sempre meus pais. Nenhuma babá concordava em ficar em casa depois que descobria tudo. Era um tormento.

Eu só escutava, não me movia.

– A minha casa ficava cheia de crianças em todas as partes. Suas risadas, seus choros e chamados pelos seus pais. Eu não tinha ideia de que elas estavam…

– Mortas? – Seria uma médium a Maire?

– Sim. Todos mortos, ali, comigo. Eu sentia cheiro de flores, misturado a cheiro de hospital. Mas graças a Deus tudo acabou quando fiz doze anos.

Eu me arrepiei todo. Devia contar tudo para ela, já sofrera demais. Coisas horríveis para uma pessoa só, e ela não merecia isso. Mas como contar? Os seus olhos estavam marejados. Peguei um refrigerante e lhe ofereci.

– Você tem ideia do que provocou tudo isso?

– Não, nenhuma. Os meus pais não procuraram respostas espirituais.

O fim da noite correu bem. Conversa até altas horas. Eu estava pensativo, claro. O que fazer para salvar aquelas pessoas? Seria melhor não ter conhecimento de nada, talvez o poltergeist já tenha ido embora, ele não dera mais sinal da sua presença. Era isso o que eu desejava, que ele já tenha deixado o apartamento em paz.

Anúncios
comentários
  1. Iana Paula disse:

    Meu amigo escreve pra PORRA velho… amei, todas as historias! Minha mãe mandou dizer que quando tiver mais tempo vai ler seu blog todo! ela amou… tbm.
    Felicidades amigo, e que vc consiga tudo que quer, por que vc merece. Nunca vi ninguém não empenhado e talentoso como vc.
    -Merece tudo de bom… e mais.
    Beijão, Muitas saudades!

  2. aaaaaaaaaaa,

    Ebert, sabe qual é meu maior sonho ?

    é ser reconhecida como escritora, não sei se o mereço, mas estarei torcendo por nós dois.

    Você escreve muito bem e merece reconhecimento, no dia que isso acontecer estarei aqui para aplaudir você. Ameei teu blog !

  3. Larissa Rodrigues disse:

    Ebert como você escreve bem ! *-*

    sucesso, viu? (:

  4. Uau, me arrepiei! Acho tudo isso muito sinistro!
    Mas você escreve bem, continue assim 😀
    http://dinhacavalcante.blogspot.com/
    http://memoriasazuis.blogspot.com/

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s