21 de agosto de 2010,

Publicado: 11/12/2011 em Diário

Coração apertado. Aquela família, ali em casa, longe de saber da verdade. Submersa num outro universo, longe do país natal.

Em busca da felicidade.

   – Bom dia – Fui o último a despertar. Eles estavam tomando o café da manhã.

   – Você estava dormindo tão bonitinho, não queria te acordar filho. Maire e seus pais riram com a minha mãe. A minha preocupação era tão grande que nem me incomodara com o mico materno.

   Os móveis novos chegariam pela tarde, enquanto isso o apartamento seria limpo. Eles haviam vendido tudo que possuíam na Irlanda para recomprar aqui.

   Os adultos estavam ocupados em arrumar os materiais de limpeza para comprar os que estavam faltando no mercado. Fomos a pé, não era longe do prédio, apenas alguns minutos. Estava cheio, muitas pessoas em diversas filas que se estendiam pelo estabelecimento.

   – Esse serve? – Maire trazia uma garrafa de água sanitária na mão

   – Ah, serve sim. Não pode faltar.

   – Fernando, está tudo bem contigo? – Tinha percebido minha angústia. – Alguma coisa lhe incomoda? Eu posso lhe ajudar… – sua cordialidade só piorava tudo.

   – Oh, Maire, não é nada. Obrigado, está tudo bem. Agora vamos, nossos pais estão esperando a gente para poder começar. – Eu sou um monstro!

   Durante a volta Maire me contou novas vivências. Nada ruim, apenas experiências normais de toda criança. Devo admitir que me confortou um pouco saber que já experimentara a alegria da vida.

   – Aqui estão as compras. – Chegamos. Eles já estavam com tudo preparado para a faxina.

   Novamente aquela porta, o meu coração acelerou. Bem diferente da última vez: era dia, sem riscos de luzes se apagando e, melhor, não estava sozinho. O pai da Maire colocou a chave na fechadura e girou, a porta se abriu com um rangido revelando o interior do imóvel.

   Entramos com as coisas. Parecia tudo normal, não sentia nada, nem via nada. Na verdade o lugar estava impecável, tudo limpo, sem as baratas e teias que deveriam de haver. O espaço era uma cópia do meu apartamento, provavelmente todos os outros haveriam de ser. Não precisaríamos usar os materiais de limpeza.

   Eu estava intrigado, sem qualquer pista da presença do poltergeist. Deveria estar feliz, mas sabia que a história não era bem assim. Olhava cada canto do apartamento prestando atenção em tudo. Mas nada estava fora do normal.

   – Já que fomos poupados do trabalho, que tal um lanche? – propôs a minha mãe.

   Voltamos para o nosso apartamento.

   – Fernando, você sentiu como se houvesse mais alguém conosco lá em cima? – Me perguntou Maire, não tinha percebido absolutamente nada.

   – Não, você sim? Vem cá, eles não devem ouvir… – Fomos para o jardim, em frente ao prédio.

   – Foi estranho, não quis falar no momento.

   – Maire, tenho que falar uma coisa pra você. Um segredo meu que você precisa saber.

   O sol deixava seus olhos mais claros.

   – Eu sou médium – disse

   – Médium?

   – Sim. E acredito que você também seja.

   – Eu? Não sei o que lhe responder, Fernando. – Ela realmente ficara surpresa. – Pode estar certo, mas não sei o que isso vai mudar.

   – Confesso que não senti nada no seu apartamento, mas poderá haver sim algo lá. Eu me sinto muito mal, muito mal.

   Era a hora de lhe contar o pior.

   – Quer voltar, tomar um remédio?

   – Não, não é nada fisiológico Maire. Eu tenho que te dizer outra coisa, difícil, que pode lhe assustar. Mas não quero isso, eu prometo que lhe ajudarei, não se preocupe.

   Peguei suas mãos, como fazia com a Lê.

   – Pode falar.

   Nunca tinha reparado como ela era linda.

   – Eu descobri que tem um poltergeist no apartamento onde você e seus pais vão morar.

   – Um polter…

   Ela começou a lacrimejar, logo o choro veio.

   – Eu não mereço isto, eles não merecem, Fernando. – Apontou para a janela do apartamento, desabafando – O que eu fiz?

  – Nada, Maire, nada. Acalme-se. Eu estou aqui. Sim? Olha, vamos conversar em outro lugar. No meu quarto, pode ser? Aqui não é o lugar mais indicado. Vamos.

   Ela enxugou os olhos com as costas das mãos para ninguém perceber. Não queria alarmar seus pais. Estava aliviado depois de ter dito tudo para ela, um peso a menos em minhas costas. Joe estava deitado ao lado da minha cama, ultimamente era o lugar onde ele passava o dia inteiro.

   – Está melhor agora?

   – Sim, acho que sim.

   – Comece pela sensação de ter sentido alguém te observando.

   Nos sentamos, eu puxei uma cadeira e ela sentou-se na cama. De tanto chorar seus olhos estavam vermelhos, assim como a ponta de seu nariz.

   – Quando entramos. – sua voz fraca – Como se nós fossemos visitantes. Não pude ver nada, apenas senti, sabe? – falava em meio a soluços – Tenho a absoluta certeza de que havia alguém… Alguma coisa lá. Então era como se eu tivesse regressado no tempo, voltado àquele quarto, na Irlanda, e tudo aquilo voltasse a acontecer.

   – Deve ter sido horrível, Maire. – falei mirando-a

   – É… E agora, Fernando? O que faço?

   Como eu queria poder ajudá-la, mas não fazia ideia do que fazer. Sentia-me um nada.

   – Não sei, mas vamos descobrir.

   – Olá, estou interrompendo? – Minha mãe entrou no quarto, sorrindo. – Maire, por que você está assim? Oh, minha querida! O que houve? – Ela a abraçou.

   – Nada, nada. São lágrimas de alegria. – Esforçou um sorriso difícil – Bem, a senhora promete não contar nada aos meus pais? Não quero deixá-los preocupados à toa, afinal estou alegre, não é?

   – Sim, claro, minha querida. – E abraçou-lhe novamente. – Maire tinha uma força imensa. – Vou deixá-los continuar a conversa.

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comentários
  1. Caroly Assis disse:

    gostei muito da sua forma de escrita Erbet! que esse ano novo voce escreva o dobro do que em 2011!

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