15 de agosto de 2010,

Publicado: 15/10/2010 em Diário

O que me aconteceu ontem no colégio em pleno sábado, e só podia ser sábado, me retornava à cabeça. Mas eu procurava esquecer por enquanto com as minhas tarefas de casa. E falando em casa as coisas não estão como antes aqui. Acho que o motivo sou eu. Meus pais estão mais estressados que nunca, e meu cachorro vive se escondendo de mim. Quando terminei minhas obrigações aproveitei a tarde para ir à livraria, estava procurando pelo O Aleph, do Paulo Coelho; sou seu fã. Seus livros sempre me surpreendem, gosto de todos.

Quando deixei a livraria com o livro passei pelo cinema, e não deixei de notar na fila que rodeava toda a praça de alimentação do segundo andar do shopping. Procurei pelo motivo, levei alguns segundos e encontrei: estréia de um filme de terror, aparentemente barato, Atividade Paranormal. Aquelas pessoas estavam pagando para assistir a cenas que eu vivenciava no mundo real totalmente de graça. Bem, analisando melhor, tem um preço sim.

Pensei em assistir, mas aquela fila brochante que só se estendia… Olhei para o relógio e eram 16:00 horas, eu tinha até as 22:00 para voltar. Me joguei e quando percebi já estava na sala.

A sessão acabou e eu saí trêmulo. Que filme era aquele? Foi o melhor terror que eu havia assistido em toda minha vida. As pessoas sentiram o que eu sinto. Elas estavam conversando entre si, histéricas; alguns tinham saído antes e escutavam agora o que se passara com o casal; outros sofreram mal e choravam sentados pelo chão. Era um fenômeno, e corria boatos de uma continuação!

Minha mãe estava em frente ao nosso prédio, eu não entendia nada. Sua cara era desoladora. “O que aconteceu?” eu lhe perguntei, ficando alarmado. “A filha da senhora Estela se matou.” Aquela resposta fez o meu coração doer, a minha melhor amiga havia se matado. A Letícia tirara a própria vida. Ali o meu mundo desmoronou, minhas pilastras estavam no chão. Eu não sabia o que dizer, o que fazer, quem eu era? Eu não sentia nada igual desde a perda da minha avó, e não tinha muito tempo. O que eu havia feito? Minha mãe disse que o seu corpo estava em sua casa. Corri largando tudo que tinha na mão.

Ela estava deitada na sua cama, minha doce amiga; sua mãe segurava suas mãos brancas. Como se estivesse dormindo. Ao seu lado estavam dois frascos de remédio vazios. Overdose. Mas por quê? Era sempre feliz, alto astral, era companheira e animadora. Não entendia, parecia que eu é que tomei aqueles comprimidos. Estela saiu para tomar água, eu me aproximei dela. Onde estava aquela garota? Ajoelhei-me à sua frente. Procurei suas mãos, eram gelo. Levei-as até o meu coração, coração que não bateria mais como antes. O seu rosto estava lívido, percebi uma lágrima que lutava em sair do seu olho fechado. Comecei a chorar também e dizer tudo o que sentia por ela. “Nossa amizade será eterna como nossas almas. Eu te amo.”

Após ter conversado com os seus pais eu voltei para o apartamento. Não comi, tomei banho, não falei nada, fui me deitar. O Aleph estava sobre minha cama. Íamos ler juntos, e discutir o livro. Não estava conseguindo dormir, não tinha a menor vontade. Só pensando nela, nos momentos que passamos. Éramos tão grudados que perguntavam se namorávamos. Éramos mais que isso, o que ela era para mim e o que eu era para ela a língua humana não sabe nominar. Mais que almas gêmeas, mais que tudo.

Ainda corriam lágrimas de mim, salgadas como o mar. Queria ter presenciado seu espírito ser acompanhado por uma alma de luz, mas sei que a realidade não é essa. Sei o que os suicidas passam… E é isso o que mais me consome.

Tínhamos muitos planos, o principal era escrever um livro juntos, para selar nossa amizade. Desliguei o abajur, mas o quarto ainda estava iluminado pela lua, que era cheia. O silêncio da noite me dava uma tapa na cara, me levando para a realidade inaceitável. Quem faltava morrer? Eu? Levantei-me e fui até a escrivaninha, retirei um envelope da gaveta. Um envelope especial, onde ali dentro estavam tesouros. Eram as cartas que a Lê me fazia, ela tinha outro envelope com as minhas cartas que eu havia lhe dado. Peguei a última e abri. Dentro tinha uma foto nossa sorridentes. Não existiam mais lágrimas para derramar.

“Olá meu amigo, como tem ido sua vida? Ontem eu passei no seu apartamento, mas você não estava. Fernando, você não pode imaginar o quanto estou feliz! Aquilo que eu te contei aconteceu, e da maneira mais sublime que eu poderia imaginar. Só nos encontrando para conversarmos. Adorei a sua carta Nando, prometa que nunca deixaremos de fazê-las. Já deve ter visto a foto, você se lembra de quando foi? Amigo, eu te amo muito, você sabe disso. Precisamos nos ver o quanto antes. Amor,

Lê.”

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14 de agosto de 2010,

Publicado: 11/10/2010 em Diário

Visitei Londres em sonho. Tão real como agora, enquanto estou escrevendo. Um sonho realizado literalmente. Deixou-me um pouco mais alegre depois de ontem e mais confuso. Como é possível?

Fui ao colégio pensativo, reparando nas pessoas e no que elas me faziam sentir. Quando cheguei tive uma surpresa, não, nada paranormal: o professor de química não iria dar aula, o que me fez ficar furioso, afinal ele daria um seminário sobre química forense. Agradeço ao CSI por me ter feito gostar. Bom, não poderia fazer nada, senão ler.

Dirigi-me ao fundo da minha imensa sala de aula, para poder me concentrar melhor. Ler era uma das minhas paixões, só estava atrás da primeira, escrever. Levei um bom tempo na leitura; ainda estava no início do segundo horário quando alguns dos meus colegas retornaram. Traziam objetos, logo percebi o que estava por vir. Iam jogar o jogo do copo, todos sorridentes, à procura de comunicação com o outro lado. Me bateu uma curiosidade; como seria agora nessa minha nova condição? Será que toda essa história é verdadeira? Eu ainda me perguntei…

Eu estava lá despercebido, como um espectador. O desconhecido sempre mantinha um fascínio sobre as pessoas, em especial os jovens. Começaram com o ritual de início, aquele besteirol todo de orações ao contrário e etc… O que na verdade não tinha efeito algum. Deram as mãos, fingindo uma seriedade falsa. Cada um dos quatro pôs seus indicadores direitos sobre o copo. Eu já imaginava o que viria: um deles iria movimentar o objeto de acordo com a resposta desejada, querendo assombrar os amigos. E juraria que não fora ele quem estava mexendo.

Um minuto se passou e aquelas coisas voltaram a acontecer. Foi numa questão de piscar de olhos, uma hora só estavam eles ali, outra uma visita bem vinda, afinal eles o convidaram não? O “Tem alguém aí?” atraíra o desencarnado. Dessa vez não me senti mal, nem bem. A figura de um homem alto, vestido de forma comum, não me passava nenhum tipo de sentimento. Ao contrário, ele estava influenciando os meus colegas. Pude notar que seus rostos estavam mudados, e uma espécie de fumaça densa emanava daquela entidade, circulando por todos eles. Tinha uma coloração familiar a mim, cor de mercúrio. Não sei defini-la, só sei reconhecê-la. Tomei coragem e me aproximei. Eles continuaram a desperceber minha presença; sentei numa cadeira bem próxima, podendo ver o que acontecia melhor. O copo foi em direção ao sim, em resposta. Os olhos deles se iluminaram. “Como se chama?”; o espírito me olhou feio, como se soubesse que podia vê-lo. André foi o que respondeu, André foi o nome que fizera formar guiando com sua mão o copo pelas letras.

A única mulher dos jogadores começou a se sentir mal, a tremer. Perguntou se poderia sair, mas ele não permitiu e ela o obedeceu.

E era ela quem mais sofria com a presença do espírito. Percebi isto porque a fumaça que a rodeava era mais intensa que nos outros, de maior quantidade, e sua cor era diferente, era violeta e não da cor do mercúrio. O que havia nela que o atraia tanto? Sua mediunidade estava mais desenvolvida. “Como foi sua morte?”; o homem voltou o olhar a mim. Quanto mais se passava o tempo daquele contato espiritual ele parecia se solidificar. Samanta, esse era o nome da garota, mantinha os olhos fechados. Sua força estava sendo “sugada”, sua energia vital se ia.

Morto, André tinha sido morto. Aproximava-se cada vez mais da menina, eu não estava gostando. Sua boca abriu demonstrando um prazer roubado. Eu o interrompi quando ia beijá-la. Peguei o copo e joguei contra a parede, quebrando ele em centenas de pedaços. A entidade revoltou-se contra mim, André berrou e me desferiu um soco. Só senti uma corrente elétrica passar por meu corpo, como se estivesse tomando um choque; meus colegas não entediam nada, apenas a Samanta não havia se levantado da mesa. Estava com os olhos cerrados, estava mais forte. Abri-os quando a voz da professora de biologia ecoou pela sala. “O que está acontecendo aqui?” Foi um grande trabalho convencê-la de que estávamos ensaiando uma peça trágica. E no fim de tudo recebemos um elogio pela realidade do “copo cênico” em pedaços.

O resto da sala chegou para a aula, e eu estava devendo uma explicação para os outros quatro. Nem me importava para o que diria, afinal sou ótimo para inventar. Estava preocupado mesmo era com o espírito, que continuava lá, me olhando, fixamente, na cadeira ao lado. E eu não sei como permanecia também ali, junto a ele. A cada dia que se passava me admirava.

Devia estar muito irritado comigo, o que estava tentando fazer? Me obsediar? E ele estava surpreso comigo. Sabia porque do nada comecei a ouvir o que pensava. Dizia que me odiava, que eu não lhe dava vida, que eu era oco… Não estava conseguindo me fazer o que fizera com Samanta. Então, do nada, ele se levantou (percebi isso pela visão periférica) e sumiu.

“Ele já se foi, não é?” Ela me perguntou, estava abalada ainda. Eu havia encontrado outra médium. Estava tão confusa quanto eu. E Deus a abençoara assim como me abençoara.

13 de agosto de 2010,

Publicado: 09/10/2010 em Diário

Essa semana foi muito conturbada, me aconteceram coisas terríveis. Acabei de voltar do funeral da minha avó, meu coração mutilado. Ela havia falecido após uma parada respiratória. Todos da família estavam lá, todos. E com dezenas de flores para dar a ela. Por que não se reuniram quando estava viva? Por que não a homenagearam com flores enquanto seu coração batia? Não escrevo por isso, eles não merecem. Escrevo agora porque quero ser escritor. Por que sou outro. E acredito que um dia essas palavras valerão mais que dinheiro, pois o que faço é com amor.

Estava tudo “normal” comigo até eu chegar à sala onde o corpo permanecia sobre o caixão. Imóvel como o de uma boneca de porcelana. Não me lembro de quantas vezes eu rezei em mente para ela voltar a mim. Estaria disposto a entregar tudo que tinha para sentir o seu calor, o mesmo que eu sentia quando me abraçava. E ouvi-la me dando a benção. Quando percebi que o que pedia não seria realizado eu me paralisei na cadeira em frente a minha avó amada. E fiquei assim por muito tempo, até que o inimaginável ocorreu: o ambiente se iluminou de uma luz alvíssima, algo que não era humano. Eu imediatamente procurei os rostos dos meus pais, mas eles continuavam com a mesma expressão de tristeza. A iluminação intensificou-se ainda mais, a ponto de meus olhos arderem, e os outros na sala não demonstravam perceber nada. Então concluí que apenas eu podia enxergar o que acontecia na vista de todos…

Voltei-me para o caixão e novamente fui surpreendido. Uma mulher estava ao lado do corpo, sua imagem era de uma paz penetrante; toda de branco ergueu a mão direita chamando minha avó. Eu sabia que ela não era como eu, de carne, e me senti feliz por isso. Minha avó levantou-se, seu espírito havia deixado o corpo. Olhou todos nós, sorriu, e depois seguiu em frente. As duas desapareceram como um crepúsculo em fim de tarde, tão natural, mas todo de uma mágica inexplicável. Eu fiquei mudo durante toda a cena, apenas observava. E odiei por isso, porque não reagi, deveria ter me despedido pela última vez. Na saída a história foi muito diferente, não existia mais aquela energia envolvente e confesso que tremi. O cenário contrastava de maneira impactante com a sala anterior. Será que tudo aquilo era real? Ou estava num surto de esquizofrenia?

Num corredor que dava acesso à saída viam-se figuras humanóides espalhadas pelo chão, novamente procurei as expressões de meus familiares, e, mais uma vez em vão, eles nada viam. Aquelas criaturas tentavam se mover arrastando-se, uma se debatendo contra a outra. E o que mais me intrigava era que as pessoas circulavam por elas, sem sentirem sua presença, atravessando-as como se não estivessem ali. Quando passamos entre elas todo o meu corpo se arrepiou, foi uma sensação desconfortável, eu até gemi. Fui presenciando tudo aquilo lentamente, à espera do despertar de um pesadelo frenético. Mas é ilusão, pois o que estava em frente nada mais era que a pura realidade.

Quando cruzamos as sepulturas novas surpresas mórbidas surgiram. Uma multidão de espíritos caminhava entre os vivos. Compreendi o que me acontecia, compreendi o que me tornara: um médium. Mas o que é ser um médium? Fala-se tanto. Chico Xavier foi um médium, um grande por sinal, ele possuía todas as mediunidades. Aquele senhor é um médium; aquela criança é uma médium. EU sou um médium. Por enquanto eu não tenho a resposta. É melhor esperar que eu viva a minha mediunidade primeiramente, para depois colher minhas próprias conclusões.

E vou ter muito tempo para vivê-la, afinal só tenho dezesseis anos.